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A tranquilidade é trágica

 

Eduardo Galeano dizia que a utopia (a busca por um mundo ideal, o exercício imaginativo do E se) é como caminhar em direção ao horizonte “Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” E quanto as Distopias, para que servem? Neil Gaiman diz que “é um alerta, um lembrete do valor daquilo que temos e de que, às vezes, pressupomos que aquilo que valorizamos esteja garantido”. A ficção especulativa usa de apenas um elemento perigoso ou problemático do mundo real e questiona o que aconteceria se aquele único fator mudar o modo como pensamos e nos comportamos. A distopia não se preocupa em prever o futuro, muito pelo contrário. Ela está muito mais preocupada em abordar o presente, “ela é preventiva”. 

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O quando é incerto, mas o dia se aproxima. O dia em o mundo mudará e a leitura e posse de livros será proibida. O dia em que bombeiros iniciarão incêndios ao invés de apaga-los.

Esse é mundo no clássico da distopia Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, lançado inicialmente em 1953 em plena Guerra Fria. A transmissão televisiva tem sua gênese no mundo, o aparelho passa fazer parte da família e da mobília da casa. As famílias reuniam-se em frente a TV para acompanhar artistas, eventos e acontecimentos da própria humanidade. Logo, os programas de entretenimento entram em cena moldando o comportamento, beleza, moralidade e estilo de vida. O ópio das massas em formato analógico.  O desenvolvimento e a popularidade que esse meio de comunicação adquire contribui para o oferecimento de cada vez mais possibilidades: Afetar o andamento de uma história (Você decide), julgar a conduta de estranhos, conhecer a intimidade de pessoas insignificantes, dar prêmios para quem considera ser merecedor, enfim, participar do show. Muitas vezes uma saída, uma fuga de um mundo que não é o seu, a alienação terapêutica que adia o sofrimento da própria efemeridade da vida. 


Nesse momento você deve – ou deveria – estar se perguntando: Será que está falando da ficção ou da realidade? Serei uma pessoa legal e responderei essa pergunta:  Estou falando de ambos! Diferente dos outros dois clássicos que compõe a santa trindade das distopias (1984 e Admirável mundo novo) o totalitarismo de Estado aparece nessa narrativa de forma sutil, exercendo controle sobre a informação. As TVs desse universo (Teletelas, como são chamadas) são unidades de transmissão interativa que permite que as pessoas façam parte do programa, podendo passar o dia inteiro em um ritual constante de viver vidas artificiais, (Mas porquê?) enquanto são inundadas com estímulos de sons e cores, e ainda recorrem a pílulas de felicidade que as ajudam a continuar sua rotina (E então, será que ainda estou falando apenas do enredo do livro?) 


 

Os dias são todos iguais e confortáveis, como hamster correndo na roda, dentro de uma gaiola confortável, sem se esperar chegar a lugar nenhum. A busca desenfreada em não se incomodar molda essa sociedade oca. Mas, em algum lugar, um homem desperta do seu transe com ajuda de uma adolescente que faz o inimaginável: Conversar. Em uma sociedade que não conversa, apenas interage com os meios de comunicação, (ou redes sociais) se interessar pelo que o outro tem a dizer já é uma forma de revolução. Esse homem é Guy Montag, um bombeiro que ganha a vida incinerando ideais em papel. 

Mas porque os livros incomodam tanto? Descobrimos com as palavras do capitão Beatty que “um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?” e talvez esteja aqui o grande valor na história de Bradbury: como os livros tem o poder de promover pensamentos, duvidas, choro, riso, lágrimas e, principalmente, das revoltas que os livros e sua leitura promovem. Essa sociedade, em busca de uma felicidade coletiva, rechaça os livros de forma voluntaria. Acreditando que essa é a alternativa para alcançar a harmonia e felicidade. Porém, isso nunca acontece e, talvez, tenha-se confundido harmonia com felicidade e conforto com liberdade. É possível ser livre de várias maneiras, como cita Faber para o protagonista “descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo.” Mas há uma singularidade que apenas os livros permitem que é “nos lembrar quanto somos estúpidos e tolos”, como somos pequenos, e como fazemos parte de um universo infinito. Talvez, não se possa encontrar todas as respostas na literatura, mas é inegável que se encontra alivio, consolo ou companhia. 

A obra Fahrenheit 451 já ganhou duas adaptações, a primeira em 1966 pelas mãos de François Truffaut que é bem fiel as páginas dos livros, contando com o próprio Bradbury como um dos roteiristas do longa. Há pequenas mudanças, como a presença mais constante de uma personagem que passa a ser bastante querida pelos fãs do livro. E a segunda vem a luz em 2018, produzida pela HBO e dirigida por Ramin Bahrani. Essa é uma obra bem básica e uma narrativa sem graça, mas que moderniza a história de Bradbury incorporando novos elementos como as redes sociais ditando o comportamento coletivo e a vida sendo vigiada por assistentes pessoais virtuais que executam tarefas por meio de comando de voz com intuito de facilitar as tarefas diárias e tornar a vida mais prática. (Te lembra alguma coisa?)


Bradbury preocupa-se que a Indústria Cultural imponha uma forma de opressão a sociedade criando uma espécie de senso moral coletivo substituindo os livros, grandes fundadores das angústias e frustrações da humanidade, pelo poder alienante da mídia televisiva. Cerceando as pessoas de conversar, interagir, de pensar e, finalmente, de agir. O incomodo é o que leva a mudança e pode ser que Antônio Abujamra estivesse certo ao dizer: A tranquilidade é trágica!  

 


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