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"Ocupe-se em viver ou ocupe-se em morrer"

 

O filme Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) de 1994 é uma das produções mais fieis a narrativa literária que tive a oportunidade de assistir. Claro, com mudanças e exclusões de trechos que são necessários para o exercício da linguagem cinematográfica, ainda assim, tais escolhas não estão em desacordo ou desconexas das linhas gestadas pelo mestre do horror, Stephen King.

Em sites e blogs especializados é fácil encontrar comentários elogiosos favoritando o longa que, inclusive, está em 1º lugar, dentre outros 250 títulos, na lista de melhores filmes do IMDB. Qual será a razão que faz tanta gente se conectar a um filme que se passa integralmente em uma prisão? Será que, de alguma forma, também nos sentimos um pouco presos?

Primavera Eterna: Rita Hayworth e a redenção de Shawshank é o conto que abre o livro Quatro Estações com autoria de Stephen King. Publicado no Brasil pela editora SUMA de letras. As quatro novelas que compõem a obra são diferentes daquilo que estamos acostumados a ver nos escritos de King, aqui ele se propõe a escrever sobre a realidade, sem grandes monstros míticos assassinos, hotéis assombrados, ou viagens no tempo. O que pode ser mais angustiante que a sombra que habita em todo ser humano?

Um sonho de liberdade – conto e filme – não se coloca na armadilha de cristalizar estereótipos referentes a condição de se estar preso, também não insinua que a vida cativa não carregue suas agruras, mas nos permite refletir como, com a rotina, a prisão se torna uma espécie de lar para aqueles que passam tanto tempo nela a ponto de esquecer como interagir com o mundo externo.  

Um sonho de Liberdade (1994)

A narrativa é feita em primeira pessoa por Red, como se lêssemos um testemunho, uma confissão, ou simplesmente ouvíssemos uma história de um desconhecido que, por sorte ou azar, encontrássemos por acaso em um parque ou um bar e se dispusesse em contar sobre sua vida. É assim que somos levados para dentro da Penitenciaria Estadual de Shawshank e conhecemos Andy Dufresne um ex-banqueiro condenado por assassinar sua esposa e seu amante. Acompanhamos, com passar de anos, as dinâmicas sociais intrínsecas ao sistema penitenciário, tanto com as figuras de autoridade que representam o Estado como com outros encarcerados. Nessa articulação somos apresentados a resiliência de Andy, a primavera eterna, aquele que não deixa que o inverno tome conta de si. 


Um Sonho de Liberdade (1994)

Andy se destaca naquele lugar, mesmo sofrendo constantes abusos, se mantém sereno o que acaba sendo confundido com arrogância. Acabamos descobrindo que ele não se acha melhor que os outros, o personagem apenas tem a convicção que não pertence ali, sua consciência estava limpa, entretanto isso não significa muita coisa em Shawshank, afinal, todo mundo na prisão é inocente. 

 

Andy protagoniza situações em que temos um vislumbre de uma tentativa de ter uma vida normal na prisão. Gestos simples que buscam recordar o que é a liberdade. Com tempo, sacrifício e insistência consegue verba para montar uma biblioteca permitindo acesso a arte e conhecimentos aos cativos em Shawshank, por vezes ajudava até alguns a concluir sua formação escolar. Porém, a vida confortável que os conhecimentos de Andy o conferem na prisão também o tornam refém, coisa que vemos em um determinado momento, onde ele tem a possibilidade de conseguir a saída daquele lugar, mas é sabotado, tal era o seu valor para aqueles que gerenciavam a prisão.

Talvez, você que acompanha minhas linhas até aqui tenha tido a impressão que Um sonho de liberdade ou Rita Hayworth e a redenção de Shawshank conte a história de um ex-banqueiro condenado por um duplo homicídio que talvez tenha ou não cometido, embora também seja isso. Aqui nós temos uma história de esperança, ou melhor, a história de um homem que se achava velho demais e incapaz demais para ter esperança.

Um homem que confundiu a gaiola com sua casa e que só precisava de alguém teimoso o suficiente para mostrar que existem coisas lá fora que valem a pena o bater de asas. Assim como cada um de nós às vezes só precisamos que alguém nos mostre que não devemos ter medo de sonhar.

O velho homem também precisava de um sonho...

Um sonho de liberdade.

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