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Como parar o relógio do juizo final?

 

imagem: Jovem Nerd

Em 1945 o mundo assiste os resultados dos estudos empreendidos no denominado Projeto Manhattan. A devastação provocada pelas armas de destruição em massa Little Boy e Fat Man é capaz de dar calafrios até no mais insensível dos mortais. O massacre empreendido em Hiroshima e Nagasaki pelos EUA completou 76 anos em agosto e é um dos eventos mais memoráveis do fim da Segunda Grande Guerra.

Em 1947, buscando uma forma simbólica de calcular o crepúsculo da humanidade (meia-noite), cientistas da Universidade de Chicago criam O Relógio do Juízo Final – também chamado Relógio do Apocalipse ou Doomsday Clock – seu objetivo era alertar sobre os perigos da corrida armamentistas dos dois grandes antagonistas do século passado: EUA e URSS. O relógio chegou a marcar três minutos para meia-noite em 1984 (vinte minutos para meia-noite é o máximo distante possível) O medo de uma terceira Guerra atrapalhava o sono tranquilo de muita gente no século que se passou.


 

Aproveitando esse sentimento de pânico e catástrofe eminente que pairava nos anos 80, Alan Moore dá vida e forma a excelente HQ Watchmen, com as ilustrações de Dave Gibbons, revolucionando a imagem, narrativa e o estilo do segmento durante aquela década. Vinte anos após a conclusão da graphic novel finalmente surge a primeira adaptação, concebida pelo diretor Zack Snyder no cinema, Watchmen o filme (2009).

Sim, você que me acompanha, nas próximas linhas pretendo fazer o impensável: comparar as duas obras.

Espero que você aguente firme, aperte os cintos e esteja ciente que as próximas linhas contêm spoiler das duas produções. Caso tenha feito uma simulação de Na natureza selvagem e nunca viu nenhuma das duas criações, faça um favor a si, vá lá conferir e depois volte aqui pra gente bater um papo, tranquilo? Uma vez avisados, vamos começar

Na HQ, um herói mascarado e bilionário ambiciona salvar a humanidade do seu colapso eminente, pra isso cria uma ameaça alienígena, digna dos contos lovecraftianos usando engenharia genética. Seu plano é que um inimigo exterior extermine milhões de pessoas obrigue a humanidade a se unir contra um inimigo em comum, parando o relógio do juízo final.

Na adaptação, um herói mascarado e bilionário ambiciona salvar a humanidade do seu colapso eminente, pra isso manipula Dr. Manhattan a desenvolver um novo tipo de reator nuclear limpo. Claro que Ozymandias, o herói mascarado, pretendia detonar esse reator em diversas partes do mundo, matando milhões de pessoas. Evento que obriga humanidade a se unir contra um inimigo em comum (Dr. Manhattan, que é tido como responsável), parando o relógio do juízo final.

O filme molda sua narrativa para que a grande ameaça a ser combatida é aquela que sempre esteve aqui. O diferente, o que sempre é envolto de medo e desconhecimento, Dr. Manhattan, único super ser desse universo e aquele que vai se afastando da humanidade que um dia teve. Um super que é pura energia nuclear em uma época de intensa paranoia sobre a corrida armamentista se torna o bode expiatório perfeito.

Todo o espírito de caos que Alan Moore planejava aproveitar em sua Novel se faz uso na adaptação de uma forma bem mais coesa, preferindo trabalhar todo o aspecto geopolítico que se faz presente. O que é um monstrão cheio de tentáculos atacando New York (ninguém liga) comparado a um Deus, imparável e incontrolável?

O mundo de Watchmen dos quadrinhos é o mesmo que o nosso, com todos os problemas, defeitos e qualidades possíveis nos anos 80. Com o detalhe de um bando de mascarados andando pelas ruas tentando fazer sua própria justiça, mas são pessoas normais – ou quase –, assim como um ou outro maluco aparecem por aí fazendo o mesmo e podemos ver em nossos noticiários. O único ponto fora da curva, o outsider é esse super ser. E o que seria mais fácil que culpar o diferente pelos nossos problemas? Não é isso que a humanidade faz com diversos grupos e minorias ao longo da nossa própria história? 

 


Não pretendo nesse texto diminuir a obra e Moore, muito pelo contrário, é excelente. Nem mesmo dizer que o filme não tem seus defeitos, até porque seria impossível, mas de apontar como o final da adaptação tanto funcionaria nas duas obras podendo fazer até bem mais sentido que a moda dos monstros gigantes.

Muito bem, levantei a questão e você pode, se quiser, continuar ela comigo. Só depende de você, caro leitor.

 

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